Pseudopatas: Adauto Lourenço e a arrogância criacionista

23/09/2010 § Deixe um comentário

[Atenção! Esse post é sobre religião. Se você é facilmente ofendido, não leia!]

Dando continuidade à seção dos Pseudopatas, vou citar um senhor conhecido meu, chamado Adauto Lourenço. Ele tem uma das tarefas mais complicadas dentro das práticas religiosas: se infiltrar nas universidades com idéias criacionistas. E ele é muito bom nisso, tanto que conseguiu uma palestra no segundo semestre de 2008 (quando eu ainda era calouro) no meu instituto, o IFSC (Instituto de Física de São Carlos) da USP. Numa atitude um tanto quanto covarde, foram espalhados cartazes anunciando o tema “O princípio do universo”, dizendo se tratar de uma palestra puramente cosmológica. Faltando poucos dias para o evento, os cartazes foram trocados, trazendo o verdadeiro tema da palestra, o Criacionismo.

Com toda sua moral de físico formado no exterior (que ele fazia questão de mencionar) numa universidade puramente cristã chamada Bob Jones University (que, ao contrário, nunca era mencionada), ele utilizava seus dotes de convencimento para dar alguma validade às suas teorias. Posso dizer que não teve tanto sucesso, mas mostrou o quão vulnerável o ambiente acadêmico é (a palestra foi organizada por um grupo de estudantes da ABU, Aliança Bíblica Universitária).

Ele tem inúmeros vídeos no YouTube, mas eu escolhi um que achei interessante:

Dentre as idéias citadas no vídeo, se encontram:

  • O design inteligente é provado pela evidência da presença de inteligência no mundo, ou seja, um ser que raciocina (ser humano) só pode ter sido criado por um ser supremo.
  • O Criacionismo é uma proposta científica, dado que apresenta tantas evidências quanto o Evolucionismo.
  • A existência de um criador é consequência da lógica e da analogia. Segundo ele, se um relógio não pode ter surgido espontaneamente (foi criado), o universo também deve ter sido.
  • O código genético, por ser extremamente complexo, é evidência clara da criação e não pode ter sido resultado de um ato de aletoriedade.
  • “Deus deixou provas claras para aqueles que o procuram e obscuras para aqueles que o rejeitam.”

Primeiro de tudo, o raciocínio do ser humano não passa de um artifício de sobrevivência. Muitos animais apresentam indícios de pensamento racional, entretanto, o nosso é o mais complexo de todos. Mas isso não é motivo para sermos prepotentes a ponto de achar que o universo todo foi criado somente por nossa causa! Pode haver em alguma parte do universo uma espécie de vida com um raciocínio extremamente superior ao nosso ou, mesmo aqui na Terra, a evolução nos guiar ao surgimento de algo assim daqui há bilhões de anos. Não passamos de macacos que começaram a pensar e, por isso, trouxemos nossa arrogância extrema ao mundo: não somos mais especiais do que nenhuma espécie!

Segundo, o Criacionismo não é, e nunca será, científico, pois ele privilegia uma direção de pensamento. Ou você acha que, se numa universidade católica for descoberto um fóssil de 200 milhões, eles irão divulgar a novidade? A Ciência deve ser imparcial e não partir de um resultado preferencial, como é feita essa Ciência cristã.

Terceiro: quando algo é “lógico” e suportado pela analogia, não necessariamente é uma verdade. Por exemplo, parece lógico a nós que uma bola não possa atravessar uma parede. No mundo microscópico, o análogo seria um elétron tentando atravessar uma barreira de potencial. Por analogia, seria impossível. Entretanto, esse é um efeito que foi formulado teoricamente e observado em experimentos (efeito de tunelamento): o elétron pode atravessar a barreira! Assim, só porque a criação nos é comum em situações do dia-a-dia, não significa que tudo deve ter sido criado.

Os cientistas não são se convencem com os argumentos criacionistas. As justificativas são falhas e subjetivas: isso não é Ciência. Não é por uma simples briga, mas pelo simples fato de estarmos preocupados com a verdade, seja ela qual for.

Para ver o Pseudopata anterior:
https://quantasneira.wordpress.com/2010/09/05/pseudopatas-laercio-fonseca-fisica-quantica-e-espiritismo/

Pseudopatas: Laércio Fonseca, Física Quântica e Espiritismo

05/09/2010 § 3 comentários

Todos que já tiveram algum contato com físicos notaram que o nível de distúrbios mentais entre nós é alto (principalmente por causa do estresse causado pela dificuldade do curso e pela alta concentração de hormônios masculinos no ar ao nosso redor). Normalmente, esses distúrbios não se tornam perigosos, afinal discutir Relatividade com postes a fim de controlar a carência é inofensivo. Entretanto, algumas vezes o físico chega naquele ponto em que todos esperam que, num belo dia de sol, ele chegue na universidade com um grande sorriso no rosto e uma metralhadora na mão. Como a idéia de ser morto, degolado ou estuprado por seres assim não agrada aos físicos menos afetados, acabamos convivendo com os perigosos para que, quando ele for matar a todos, pelo menos nos deixe por último. Assim, eles acabam se formando, ganhando o estrondoso respeito de um físico formado (somos tão respeitados quanto uma dançarina de funk que vende calcinhas usadas no eBay) e espalhando suas idéias malucas por aí sob o disfarce de “físico extremamente respeitado na comunidade científica”.

E é por tudo isso que eu criei essa seção do blog: os Pseudopatas. Como o próprio nome já diz são os pseudo-cientistas, que espalham idéias absurdas e não aceitas na comunidade científica em geral, e têm em sua personalidade algum indício de que vai torturar pessoas algum dia.

O felizardo que estréia essa magnífica seção é o Prof. Laércio Fonseca:

Dentre suas brilhantes idéias, estão:

  • A chamada “Nova Física”, que é uma expansão da Mecânica Quântica e explica a existência dos espíritos em outros planos da realidade como uma simples conseqüência da quantização da energia (que cria uma quantização da massa do universo).
  • O chamado “salto quântico”,  a transição entre um elétron de níveis de energia no átomo,  ocorre instantâneamente, o que daria uma velocidade infinita ao mesmo. Assim, não seria possível o elétron existir durante esse salto (ou seja, ele vai para um outro plano da realidade), pois estaria contrariando um dos postulados de Einstein. Diz que os extra-terrestres utilizam esse princípio em teletransportes.
  • Todos os elétrons do universo estão correlacionados (emaranhados), o que demonstra a existência da consciência, que é modelada como uma nova partícula. A consciência, que também obedeceria os princípios da Mecânica Quântica, como a quantização e o princípio da incerteza, poderia ser “expandida” (o que ele descreve como uma diminuição de seu comprimento de onda, que aumenta sua extensão espacial) através de Ioga e Tai Chi Chuan. Nessa concepção, Deus seria uma entidade de consciência com comprimento de onda infinito (frequência nula).
  • Com o desenvolvimento dessa teoria, no futuro teremos comunicadores interdimensionais, algo como telefones pra falar com mortos, e máquinas que fazem deslocamentos quânticos (através da consciência) pelo universo.
  • Visa converter os céticos, mostrando que a realidade do espiritismo é conseqüência pura da Ciência.

Se vocês quiserem perder duas horas de suas longas vidas (afinal, você gasta tempo lendo esse blog), assista um dos vídeos do cara, que têm somente 14 partes:

Só me vêm a cabeça três palavras nessa hora: puta que pariu!

O pior de tudo é que o cara tem uma noção do que ele tá falando, mesmo cometendo muitos erros enquanto explica Mecânica Quântica. Isso mostra claramente que ele deve ser mesmo formado em Física (o que sinceramente não impressiona muito) pela Unicamp (isso até que impressiona, mas nem tanto). Se formar em física não significa muita coisa. Para a comunidade começar a olhar para você, é preciso alguns pós-doutorados (se não sabe o que é isso, entenda somente “coisa foda que você demora muito tempo para chegar”).

Ele tem muitos livros publicados (Quero um!… NOT!), dentre eles “Física Quântica e Ufologia”, “Manual de Sobrevivência à Guerra Nuclear” e “Relacionamentos afetivos: Sexo, tantra, amor e espiritualidade”, e parece ser conhecido no meio (leia isso como “parece já ter ganho uma grana com isso”).

Esse é um dos grandes exemplos de que a Ciência não pode ser usada a favor dos religiosos. Mesmo que eles continuem tentando criar teorias extremamente complicadas que implicam na existência de Deus, isso não basta. Um raciocínio ser válido baseado em postulados (como toda a Ciência é), não implica que ele é verdadeiro. Precisa-se de evidências. E, meu caro Laércio, é exatamente por isso que você não vai conseguir converter céticos com isso, a menos que você crie esse comunicador interdimensional de um modo que qualquer pessoa no mundo possa usá-lo.

Foda…

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